Aug 23 2010
Task 1 – Comments about the articles: Formação de professores de inglês no Brasil, by Ana Maria Ialagoa and Marilia Claret Geraes Duranb, and O ensino de língua estrangeira e a formação do público, by Telma Gimenez.
Nos artigos em questão, Ana Maria Ialago e Marilia Claret Geraes Duran apresentam reflexões sobre a situação do processo de formação de professores de língua inglesa no Brasil e sua visão sobre a profissão. No segundo artigo, Telma Gimenez discute assuntos que permeiam a relação do professor de línguas estrangeiras com a formação do cidadão, considerando as transformações existentes sobre o conceito de cidadania ao longo dos séculos e como este pode ser transmitido pela ação do professor em sala de aula.
Ialago e Duran iniciam seu artigo trazendo uma distinção de Bourdoncle (1991, p. 92-94) entre os termos profissionalidade, profissionismo e profissionalismo. O primeiro está associado às instabilidades e ambigüidades que envolvem o trabalho em tempos neoliberais e geralmente vem colocado como uma evolução da idéia de qualificação, o segundo é um neologismo que está ligado a estratégias e retóricas coletivas que tentam transformar uma atividade em profissão, e o terceiro é marcado pela adesão individual à retórica e às normas da corporação. Para o autor, é nesse estágio que realmente começa a socialização profissional.
A partir destes conceitos chega-se a duas questões que são discutidas no artigo: a questão da descaracterização e desvalorização social da educação e do professor refletidas pela diminuição de matrículas em cursos de licenciatura; e a insatisfação de egressos dos cursos de licenciatura que relatam a falta de aprofundamento nas questões de ensino-aprendizagem relacionadas com a realidade educacional brasileira.
Com base nestas questões, as autoras levantam algumas lacunas na formação destes profissionais: ausência de um perfil profissional do docente a ser formado; falta de integração entre áreas de conteúdo e disciplinas pedagógicas e formação dos formadores. Ainda nos cursos de Letras ainda há a questão da dupla licenciatura, português e uma língua estrangeira, que por vezes apresenta incoerências referentes à quantidade de disciplinas dedicadas a cada uma das áreas do curso, sendo a parte da licenciatura em português a “privilegiada”.
Além destes problemas diretamente relacionados à formação do professor de línguas, há também questões que interferem no valor da imagem deste profissional. Ou seja, a matéria em si, Inglês nas escolas, perde o valor por não possuir a mesma carga horária que outras ditas importantes, como Língua Portuguesa ou Matemática, ficando assim com os horários mais complicados, que por vezes é tomado por outras atividades como reuniões ou eventos esportivos. Tudo isso colabora para a desvalorização do professor de línguas.
Outra questão interessante sobre a formação dos professores de inglês no Brasil diz respeito às razões pelas quais estas pessoas decidiram seguir esta profissão e suas visões sobre o processo de ensino e aprendizagem. Em um questionário aplicado a professores de inglês de uma rede de idiomas da Grande ABC, São Paulo, as autoras procuraram observar como estes profissionais estão situados socialmente e como, enquanto “teorias socialmente criadas e operantes”, relacionam-se com as condições da realidade cotidiana, surgindo a partir das condutas e comunicações realizadas por uma determinada comunidade e influenciando as expressões e práticas dos grupos sociais no seio dos quais são elaboradas e para os quais retornam. Em geral, os entrevistados relataram que o gosto pela profissão está relacionado à “paixão” pela língua, ou vocação para o ensino. Relataram também que o papel da universidade é mais ‘mercadológico’ do que de ‘transmissor de conhecimento’, visto que a experiência e a prática já são suficientes para se alcançar o conhecimento necessário para o ensino. Há uma estigmatização da docência ao tratá-la como um ‘dom’.
Notamos então que, no processo de formação de professores de línguas inglesa, existem muitos ‘problemas’ a serem refletidos e trabalhados. A realidade social brasileira colabora na triste conclusão de milhares de egressos dos cursos de licenciatura, baseada em uma denegrida visão sobre a educação e o aprendizado de inglês nas escolas públicas. Os cursos de Letras – Inglês realmente precisam estar alertas sobre estes pré-conceitos e providenciar um trabalho de reflexão sobre estas questões afim de alterar gradativamente esta ideologia que paira sobre a classe e a sociedade.
Ainda relacionado sobre a formação dos professores e a visão dos mesmos sobre sua atuação e seu trabalho, devemos lembrar que os próprios profissionais detêm parte do poder para alterar a situação social, visto que a sociedade que teremos no futuro está na mão dos professores de hoje. Sobre esta questão, Gimenez discute o papel do professor no trabalho com alunos sobre o esclarecimento da cidadania. Gimenez partilha com Roberto Alejandro (1998) da visão de que é preciso ver cidadania não como uma categoria jurídica ou conjunto de atitudes cívicas, mas como horizonte, como prática, como um elemento importante da condição humana.
Em seu artigo, a autora nos apresenta o conceito de cidadania apresentado pelo MEC nos documentos dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Sobre este, afirma que embora sem especificar como deve acontecer essa participação, parece que a perspectiva é de que a função da educação é garantir os meios necessários para uma cidadania “consciente e ativa”, ou seja, possibilitar o acesso à totalidade dos recursos culturais relevantes para a intervenção e a participação responsável na vida social”.
Sobre o a finalidade do ensino de línguas estrangeiras, Gimenez defende que ela é educacional na medida em que favorece a participação no processo discursivo. Assim, aprender sobre linguagem, seja ela estrangeira ou materna, possibilitaria aos indivíduos se constituírem enquanto cidadãos – interagindo com outros e dando assim existência à cidadania, que, na definição de Habermas, só acontece quando se dialoga sobre o que é o bem comum, ou seja, questões públicas.
Ambos os artigos nos revelam a complexa rede de questões vinculadas ao professor de línguas, desde sua formação até o que pode ser produzido por ele que refletirá na formação dos cidadãos. Visto o tamanho desta missão, é triste notar o quanto ainda é pouco estimado o valor social deste profissional e como isso tem refletido diretamente no desempenho do mesmo com relação a sua atuação. Estes artigos ganham muita importância ao nos fazer refletir sobre estas questões e perceber como um enorme leque de ideologias e deficiências estão diretamente relacionadas as questões de ensino de línguas e formação de professores.
